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18/07/2010
A crise da mão de obra

A construção civil enfrenta hoje a pior crise de mão de obra da sua história: a entrega dos imóveis do boom 2007/2008 está atrasada, e os novos empreendimentos estão sendo negociados a prazos 10% maiores do que os usuais.


Tudo por falta de pessoal, garantem empresários, enquanto os executivos dizem que o setor teme 2011. Até porque, ainda não se sabe quem vai pagar a conta, já que está cada vez mais caro contratar profissionais, de pedreiros a engenheiros. E com os preços dos imóveis nas alturas, resta saber se as empresas conseguirão repassar o reajuste salarial para o comprador ou terão de reduzir suas margens de lucro.


Quanto à entrega, se o mutuário se acostumou com prazos entre 24 e 30 meses, agora terá que esperar um pouco mais: de 28 a 36 meses, diz o presidente da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi) e da construtora CHL, Rogério Chor. Já quem estava na iminência de se mudar precisará rever os planos. Boa parte dos empreendimentos lançados durante o boom não só está atrasada, como já superou os 180 dias adicionais previstos por lei.


Déficit no Rio é de 14 mil profissionais


O efeito dominó da escassez de profissionais (de serventes a engenheiros) já produz baixa no caixa das construtoras. Até junho, o Índice Nacional do Custo da Construção (INCC-M) acumula alta de 5,29% no ano. Bem acima dos 3,2% de todo 2009.


Mês passado, o que mais subiu foi a mão de obra, puxada por ajudante especializado (3,18%), servente (2%) e pedreiro (2,5%).


Segundo o engenheiro de uma grande construtora da cidade, só o custo da mão de obra para execução de alvenaria estrutural subiu, no Rio, 30% de maio de 2009 a abril passado. Para Luiz Henrique Rimes, diretor Nacional de Negócios da João Fortes Engenharia, o aumento do custo da construção será inevitável, tendo em vista as obras previstas em função da Copa de 2014, das Olimpíadas de 2016, do projeto Porto Maravilha, e ainda do PAC e do Minha casa, Minha vida.


- Hoje trabalhamos com um custo de construção conserva aumento. Temos um sistema de capacitação de profissionais, que não consegue, nem de longe, acompanhar a alta velocidade da demanda - diz Rimes.


Obras iniciadas em 2007 e 2008 não só estão atrasadas como também ultrapassaram o orçamento previsto. Mas, nesse caso, frisa Rimes, não foi feito qualquer repasse para os clientes.


A curto prazo, as perspectivas projetam um cenário complicado.


Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), só no Estado do Rio, faltam ao setor hoje 14.363 trabalhadores. Enquanto a demanda prevista para o ano é de 179.078, a oferta de mão de obra qualificada é de 164.715. As empresas calculam um déficit maior: de 25 a 30 mil, diz José Conde Caldas, presidente da Concal.


- Nunca tivemos crise tão aguda no setor em relação à mão de obra. No passado, a opção de "importar" trabalhadores do Nordeste era um paliativo. Mas hoje o mercado imobiliário daquela região fervilha tanto ou mais que o do Rio, principalmente porque há um mercado grande para estrangeiros.


Considerando que o Minha casa, Minha vida já licenciou umas 31 mil unidades, a perspectiva é ainda mais assustadora.


As consequências, diz Melvyn Fox, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Material de Construção (Abramat), já são sentidas nos canteiros de obras, com perdas altas de materiais e queda na produtividade.


- O setor passou por longo período de estagnação, que afugentou a mão de obra. Trabalhar na construção civil passou a ser um quebra-galho. A situação se inverteu em 2007. Num primeiro momento, tivemos retorno de pessoas que migraram para outras áreas. Mas não foi suficiente.


A longo prazo, Rogério Chor prevê ainda uma mudança na forma de se construir no Brasil.


- Cada vez mais, as empresas serão obrigadas a investir em tecnologia.


No país, opta-se pela mão de obra, ainda barata. À medida que ela for encarecendo, o setor será obrigado a se industrializar, a exemplo do que acontece lá fora. Mas esse processo será demorado.


Clientes reclamam de transtornos por atrasos


Atrasando as obras, a escassez de mão de obra está, por tabela, causando muitos transtornos aos mutuários, principalmente a quem fechou negócio há dois ou três anos. É o caso do empresário Antônio Carlos Santos, que comprou, em setembro de 2007, uma unidade num empreendimento recémlançado, em Botafogo.


A entrega, prevista para dezembro do ano passado, não aconteceu. Terminados os 180 dias adicionais previstos por lei, a obra ainda está longe de acabar.


Por carta, enviada às vésperas da data limite para a entrega do imóvel, a construtora creditou o atraso à dificuldade de contratar mão de obra.


- Eu vendi o imóvel onde morava, confiando no prazo dado pela empresa. A minha intenção era fazer caixa para liquidar o saldo devedor. Hoje, essa quantia já não é mais suficiente para quitar esse saldo, que aumentou consideravelmente - explica Santos.


A funcionária pública Regina Nunes também comprou um imóvel em 2007, em Jacarepaguá.


A entrega do empreendimento atrasou e a construtora pretende entregá-lo mesmo sem terminar algumas áreas comuns, como a de lazer: - É um desrespeito ao cliente, que não recebe qualquer compensação pelo atraso e, no fim das contas, paga mais.


Na tentativa de atenuar o déficit de profissionais, algumas construtoras recorrem ao Serviço Social da Indústria da Construção (Seconci-Rio), ligado ao Sinduscon-Rio.


- Temos no site um banco de oportunidades que reúne trabalhadores que querem se recolocar no mercado. Além disso, oferecemos treinamento básico para a função de servente. E, em parcerias com o Senai, conseguimos que esses serventes tenham educação continuada, para virar pedreiros, eletricistas, marceneiros - diz Ana Cláudia Gomes, coordenadora de relações institucionais do Seconci-Rio.


Para o presidente da Concal, José Conde Caldas, a capacitação promovida pelo órgão ainda deixa a desejar: - O treinamento para a construção civil exige convênio com as construtoras. Não deve ser feito em sala de aula, mas na obra mesmo. Além disso, deveria haver um investimento na mão de obra feminina, que, em São Paulo, já representa 30% do pessoal que está nos canteiros. Aqui no Rio, ainda estamos muito atrás.


Lojas de materiais viram salas de aula


No caso dos materiais de construção, já há proximidade entre profissionais, que atuam como professores, e alunos. O programa "Doutores da Construção", criado pelas empresas Amanco, Astra, Coral, Docol, Phelps Dodge, Schneider Electric, Sika e Weber Quartzolit, é feito em parceria com lojas do setor. Elas cedem espaços, que viram centros de treinamento de alvenaria, hidráulica, elétrica, pintura e revestimento.


- Hoje, há 142 lojas credenciadas no Sudeste. Até o fim do ano, serão mais 145 - diz Rodrigo Fernandes, coordenador de operações de lojas do "Doutores da Construção".


Fonte: O Globo - Flávia Monteiro

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